Por Alécio Gonçalves da Silva

Prestes a ser declarado “beato”, vinte e cinco anos após ter sido assassinado, a memória do Padre Nazareno Lanciotti (1940-2001) continua viva na região oeste de Mato Grosso, além de movimentar os bastidores eclesiais e políticos, que veem o progresso do burocrático e oneroso processo de canonização, como oportunidade de afirmação da fé católica, bem como, uma possibilidade de incremento à economia local com o desenvolvimento do turismo religioso na cidade de Jauru.
Nascido em Roma, Itália, nos idos iniciais da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Nazareno Lanciottti foi ordenado sacerdote em 1966, chegando ao Brasil, mais precisamente à Diocese de Cáceres no início da década de 1970, estabelecendo-se na então gleba do Jauru, e erigindo nesta, a paróquia Nossa Senhora do Pilar (1976) como parte da ação pastoral de expansão do atendimento religioso implementada a nível diocesano pelo bispo Dom Máximo Biennés.
No distrito, e depois município emancipado de Jauru, padre Nazareno para além do trabalho religioso, desenvolveu uma atuante ação social em prol dos mais vulneráveis. Se mobilizou e organizou a comunidade em busca de serviços essenciais, como a construção de escolas, hospital, abrigo para idosos e dezenas de capelas em longínquas comunidades rurais.
Uma outra vertente de atuação do religioso – menos mencionada, diga-se de passagem – foi na questão fundiária. Jauru e a região do Guaporé foram ao longo das décadas de 1970, 1980 e 1990 um dos principais focos de conflito no campo em Mato Grosso, com inúmeras mortes violentas de posseiros e suas famílias em ocupações que reivindicavam a Reforma Agrária.
A Diocese de Cáceres, sob o episcopado de Dom Máximo, em variados momentos buscava se posicionar ao lado dos trabalhadores rurais e contra os conflitos. Os trabalhos da Comissão Pastoral da Terra (CPT) aliada a atuação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Jauru, surgido nos anos 1980, orientava as famílias, formava lideranças, acionava os órgãos e agentes competentes e acolhia as vítimas em momentos de hostilidade.
Em meados da década de 1980 explodiram os mais violentos conflitos envolvendo jagunços, forças policiais e os posseiros, cuja consequência foi a morte de dezenas de trabalhadores rurais. Latifundiários da Agropecuária Mirassol S/A, ocupada por mais de 600 famílias, contrataram pistoleiros para expulsar os posseiros, o resultado foi um banho de sangue. “Nas matas, o povo fugia, amedrontado”, registrou Dom Máximo Biennés (1987, p. 420).
Padre Nazareno Lanciotti, liderança eclesial e social na região, acolhia os feridos no hospital e dava abrigo às famílias nas capelas da paróquia. Em contato com a Diocese e com autoridades de Cuiabá, representantes do judiciário e da Igreja deslocavam-se para Jauru. Conforme Dom Máximo (1987, p. 423), a Igreja deixava claro aos posseiros que a estava do lado deles.
Assim sendo, padre Nazareno testemunhou muitas vezes as exações da polícia e o desespero das famílias. Sempre em contato com o bispo diocesano e orientado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), encaminhava telegramas dando conta dos acontecimentos às autoridades públicas de Cuiabá e Brasília.
Diante dessa conjuntura, militares e agentes federais vinculados especialmente ao Serviço Nacional de Informação (SNI) – órgão de espionagem criado pela Ditadura Militar (1964-1985) – acompanhavam com preocupação e sigilosamente as movimentações das lideranças e familiares, como também das figuras políticas e religiosas locais.
Desse modo, ao menos três documentos, originalmente confidenciais, e hoje disponíveis no Sistema de Informação do Arquivo Nacional (SIAN), expõem a preocupação dos militares com a atuação do padre Nazareno Lanciotti junto aos posseiros. Os relatórios datam de 1984, 1985 e 1987 respectivamente, no contexto da redemocratização, mas ainda em uma conjuntura de “transição inacabada”, no qual sobreviviam muitas das instituições e práticas do regime de exceção, e militares continuavam a ditar os trâmites da pressuposta segurança nacional.
O primeiro documento a mencionar o religioso italiano possui o sugestivo título de “Atuação de religiosos italianos no Brasil” produzido em outubro de 1984, ao que indica, pela agência do SNI do Rio de Janeiro, e que traz uma lista com os nomes dos clérigos separados pelos estados da federação no qual atuavam. Conforme o texto, alguns dos ítalo-religiosos objetivavam “instruir, amparar e subvencionar em parte, movimentos populares que desenvolvem ações que visam alternativas para a sociedade brasileira". Para os autores do documento, alguns dos nomes listados, estavam “profundamente envolvidos com estes movimentos”.
Em Mato Grosso, o relatório classificou doze religiosos italianos, dos quais nove pertenciam à Diocese de Cáceres, destacando seus endereços, mas apontando que não eram conhecidos com exatidão suas atividades subversivas, apesar que, de acordo com o registro, todos mantinham ligações, mais ou menos estreitas, com Dom Pedro Maria Casaldáliga, bispo prelado de São Félix do Araguaia (MT), expoente da Teologia da Libertação e um dos maiores contestadores da ditadura.
O alastramento das ideias do bispo de São Félix no meio social e do clero, no momento em que afloravam inúmeros conflitos por terra no país, era uma preocupação dos militares desde os anos 1970. Nesse período, em Mato Grosso, as regiões do Araguaia e do Guaporé eram os principais focos das lutas pela Reforma Agrária e por consequência das violências no campo, não sendo descartado pelos órgãos de inteligência do regime, uma ação conjunta entre as lideranças e o clero de ambas as localidades.
O segundo documento, datado de abril de 1985, trata da viagem de uma comitiva coordenada pela Secretaria Geral do Conselho de Segurança Nacional (SG/CSN), composta por representantes militares e de ministérios civis após a repercussão nacional dos bárbaros episódios ocorridos no final de 1984. O texto faz um compilado sociopolítico da cidade de Jauru, e destaca no subtítulo “Atividades do padre local” a atuação do padre Nazareno, frisando a existência de um seminário para a formação de futuros religiosos e o hospital – obras do religioso – bem como, que por ocasião dos violentos acontecimentos envolvendo posseiros e a polícia no ano anterior (1984), o padre “tomou partido dos primeiros”.
Outro documento, “Missionários estrangeiros em Mato Grosso”, este de meados de 1987, foi produzido pelo Serviço de Informação da Polícia Federal de Mato Grosso (SI/PF) e remetido à agência central do SNI, como resposta a um pedido anterior da própria agência. O informe compila o nome de quase uma centena de religiosos e religiosas de origem estrangeira vivendo em Mato Grosso, entretanto traz parágrafos descritivos apenas sobre a alcunha de dois clérigos católicos: Dom Pedro Casaldáliga e Nazareno Lanciotti, sendo que sobre este último destaca: “italiano, padre, condição permanente, trabalhando na paróquia de Nossa Senhora do Pilar em Jauru. Área crítica em questão fundiária, o padre tem disseminado suas ideias e orientações aos posseiros, sem-terra e similares da área”.
É certo que o posicionamento e a atuação de padre Nazareno ao lado dos posseiros incomodavam sobretudo os latifundiários da região. Desde o início da década de 1980, ações hediondas vinham se desdobrando contra os posseiros, indo de espancamentos a assassinatos. Policiais confundiam-se com jagunços na ação repressiva.
O INCRA e demais órgãos competentes só passaram a se mobilizar após muita pressão social e denúncias na imprensa nacional. Mesmo assim os principais líderes das ocupações foram perseguidos e muitos mortos com requintes de crueldade, como quatro posseiros, entre eles a liderança conhecida como Manoel “Chapéu de couro”, encontrado morto no rio Guaporé no final de 1984 com os braços e pernas amarrados, cabeça degolada e sinais de tortura pelo corpo.
Mesmo após a desapropriação da área do latifúndio da Agropecuária Mirassol no final dos anos 1980, e a titulação para as famílias com a criação dos assentamentos Mirassolzinho I e II – fruto de muito sangue e mobilização social –, os confrontos não cessaram na região, ao contrário, ganharam novos contornos, principalmente com a emergência de interesses na exploração dos recursos hídricos da bacia do rio Jauru para a implantação de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs).
Assim sendo, os registros produzidos pelos órgãos de informação, nos idos finais da ditadura e mesmo no período da redemocratização, demonstram que a atuação do padre Nazareno e de outros, era monitorada e interpretada como potencialmente subversiva e desestabilizadora do ordenamento político e econômico local. Sua atuação ao lado dos posseiros e mais vulneráveis, as denúncias de violências e injustiças no campo e o enfrentamento, direto e indireto, de interesses consolidados na estrutura fundiária regional o colocaram, sem dúvida, em uma posição de crescente incômodo para setores poderosos.
Assassinado em 2001, a morte de padre Nazareno Lanciotti continua envolta em mistério. A versão oficial sustenta a tese de latrocínio, apesar de que nada foi roubado efetivamente. Com cinco volumes, os autos do processo apontaram três pessoas envolvidas na morte, sem nunca ter chegado a um mandante. Na época do crime, o saudoso padre, também italiano, Hermínio Celso Duca, que foi amigo de Nazareno e que também figura em relatórios militares, revelou que o assassino – segundo testemunhas – teria cochichado ao ouvido da vítima e lhe dito que o mataria porque ele “prejudicava gente poderosa”. Para Celso Duca, “aquilo não foi assalto, porque não levaram nada. Eles queriam mesmo era a vida do padre!”
FONTES E REFERÊNCIAS
ACE n° 11401/84. Atuação de religiosos italianos no Brasil. SNI/RJ, 95 fls., out. 1984.
SG/CSN. Relatório específico de viagem: município de Jauru-MT, abr. 1985. In.: Ofícios diversos, SG/CSN, 95 fls., jun. 1988.
SI/SR/DPF-MT. Missionários estrangeiros em Mato Grosso. Inf. nº 097/87, jul. 1987. In.: ACE Nº 08403/89, 19 fls., maio 1989.
BIENNÉS, Dom Máximo. Uma Igreja na Fronteira. São Paulo: Edições Loyola, 1987.
GOMES, Eduardo. Assassinos de padre de Jauru já estão presos. Diário de Cuiabá. 28 jan. 2002. Disponível em: <https://www.diariodecuiaba.com.br/cidades/assassinos-de-padre-de-jauru-ja-estao-presos/86358> acesso mar. 2026.
PEDRETTI, Lucas. A Transição Inacabada: Violência de Estado e Direitos Humanos na Redemocratização. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
Por: Alécio Gonçalves da Silva, Mestre em História pela UFGD, Professor da Rede Estadual de Mato Grosso.


