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AGRONEGÓCIO

Agro sustentável muda a rotina urbana do Vale do Guaporé


Soja e milho em ILP recuperam pastos, geram renda e reduzem fuligem. O impacto aparece no emprego, no frete e na qualidade do ar.

Por Por Eduardo Cardoso

Agro sustentável muda a rotina urbana do Vale do Guaporé

Pontes e Lacerda (MT) vive uma transição visível nas ruas. A expansão de soja e milho, integrada à pecuária, elevou a produtividade no campo e acelerou serviços na cidade. Desde 1º de agosto de 2025, gasolina com 30% de etanol anidro (E30) e diesel com 15% de biodiesel (B15) passaram a valer no país, medida que move cadeias de grãos e biocombustíveis e reforça a produção no Estado.

O município está entre os dez maiores rebanhos de Mato Grosso e somou 657,7 mil cabeças em 2025, segundo dados do Instituto de Defesa Agropecuária (Indea MT), reafirmando que o Oeste do estado combina pecuária forte e agricultura crescente.

A virada produtiva nasce da recuperação de pastagens e da Integração Lavoura-Pecuária (ILP). O sistema melhora o solo, amplia a lotação e reduz pressão por novas aberturas quando bem adotado, segundo a Embrapa.

“Desde que a cultura da soja passou a ser cultivada em Pontes e Lacerda, introduzida por meio da pecuária, a capacidade de arrobas por hectare aumenta muito mais. A vida do município tomou outro tipo de impulso”, afirma Aparecido Flávio, presidente do Sindicato Rural.

Segundo o sindicato, cerca de 80% da área agricultável entrou primeiro como reforma de pastagens feita por pecuaristas. O ganho por hectare cresceu e surgiu uma segunda fonte de renda. O avanço da soja veio com o milho, voltado a ração e biocombustíveis.

Colheita de soja com transbordo para caminhões no Vale do Guaporé.
Foto: Rodolfo Perdigão

“E30” e “B15” já estão nas bombas. A mudança foi aprovada pelo CNPE, em 25 de junho, e regulamentada pela ANP, que ajustou a especificação da gasolina para manter desempenho com mais etanol. A agência também orientou os postos na adaptação.

Para o professor e pesquisador da UFRJ Donato Aranda, os biocombustíveis são peça prática da descarbonização. “Há um senso comum: precisamos reduzir emissões. No transporte pesado, a eletrificação esbarra no peso das baterias. Hoje, a opção técnica viável é biodiesel e etanol — e o aumento do teor na gasolina ajuda nesse caminho.”

Professor e pesquisador Donato Aranda afirma que os biocombustíveis são essenciais para uma vida mais sustentável

Os efeitos são locais, diz Aranda. “O incremento do biodiesel reduz material particulado — a fuligem — ligado a doenças respiratórias. A melhoria aparece no ar que a cidade respira.”

O pesquisador destaca o impacto econômico. “Usinas de biocombustíveis elevam emprego qualificado, renda e o IDH ao redor. O setor ainda puxa a academia: biodiesel e etanol exigem inovação contínua; o País já mira o combustível de aviação renovável.”

Na indústria, o tom é o mesmo. “O anúncio fortalece a agroindústria de Mato Grosso, atrai investimentos e descarboniza a economia”, afirma Silvio Rangel, presidente da Fiemt e da Bioind-MT. Segundo a EPE, o novo patamar pode eliminar importações de gasolina pura até 2030.

O dinheiro da safra circula na cidade. Crescem oficinas, autopeças, lojas de insumos, assistência técnica, fintechs e construção civil. “A região é promissora. A soja trouxe tecnologia e planejamento. Há relatos de médias acima de 70 sacas por hectare, enriquecendo a região”, diz o produtor e empresário Cezar Volpato.

A demanda por proteína e biocombustíveis se apoia em plantas regionais. Em janeiro, a Barralcool retomou a produção de biodiesel em Barra do Bugres e tornou-se operação integrada de álcool, açúcar e biodiesel. Essa rede ajuda a abastecer o consumo urbano com combustível mais limpo.

A recuperação de pastos com ILP — palhada protegendo o solo, correção com calcário e adubação — tem efeito direto na pecuária que sustenta o comércio urbano. A rotação soja-pastagem melhora a fertilidade, eleva a lotação animal e dá previsibilidade ao caixa da fazenda, que se converte em consumo no varejo e no mercado imobiliário